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Tertúlia em Faro - II Surf Arte Show

Shapers Revelam a Sua Arte

Da esquerda: Manuel Mestre, presidente do Clube de Surf de Faro, com os 'shapers' Leandro Simões, Ivo Afonso, Nick Uricchio e Uwe Kluba (@paulomarcelino)
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A segunda edição do Surf Arte Show, organizada pelo Clube de Surf de Faro, foi concluída com uma inédita tertúlia que juntou quatro ‘shapers’ – Leandro Simões, Ivo Afonso, Nick Uricchio e Uwe Kluba – para falar sobre a arte de produzir pranchas de surf, na Loja Fnac do Fórum Algarve, ontem à noite, sábado 25 de Abril. Final perfeito para um evento que durante o dia ocupou e animou o átrio principal do centro comercial em Faro com exposições, demonstrações e até um concerto musical.

O Surf Arte Show é uma iniciativa do Clube de Surf de Faro que pretende demonstrar a ligação entre os mundos do surf e da arte. Começou sexta-feira à noite, com a exibição de dois filmes na estreia nacional do ‘road show’ do Allianz Surf Film Festival, no auditório do Instituto Português do Desporto e Juventude em Faro. A entrada na sala foi feita mediante a doação mínima de 1€ por pessoa a favor da delegação de Faro da Associação Portuguesa de Paralisia Cerebral.

Sábado, o Clube de Surf de Faro ocupou o Forum Algarve com exposições de trabalhos de ‘shapers’, demonstrações de aulas de surf a seco (fórmula que o clube costuma levar às escolas do concelho) e um concerto ao vivo com a banda Mopho, que tem dois músicos surfistas. Uma tarde de intensa actividade que serviu também para lançar mais uma edição das Férias Desportivas, nas quais o Clube de Surf de Faro está profundamente envolvido. Veja o video:

O evento foi concluído com a tertúlia sobre ‘shape’, a partir das 21h00, na Loja Fnac do Fórum Algarve. Se o Surf Arte Show faz a ligação entre o surf e a arte, o tema da tertúlia foi uma escolha perfeita para o ilustrar. Como ficámos a saber pelas palavras dos ‘shapers’, “a essência do shape é fazer as pranchas à mão”; é um trabalho fundamentalmente artesanal… é uma arte que está na base da prática do surf. E mesmo recorrendo a máquina, para facilitar a reprodução de modelos e aumentar a produção, os acabamentos e afinação final das pranchas dependem sempre do “toque mágico” das mãos de cada ‘shaper’ e essa é a marca que diferencia o autor.

Além de ser uma escolha perfeita de tema para ilustrar a mensagem do Surf Arte Show, a tertúlia com os quatro ‘shapers’ foi também um momento inédito e, por isso mesmo, histórico. Quando questionados sobre se já tinham participado num debate semelhante, os quatro ‘shapers’ responderam que aquela foi a primeira vez. A resposta ganhou dimensão temporal na voz de Nick Uricchio, fundador da Semente Surfboards e figura histórica do surf em Portugal. A tertúlia deveria ter durado uma hora, mas o interesse foi tanto que se prolongou por duas horas… até a loja ter de encerrar.

O painel de participantes na tertúlia foi diversificado, o que contribuiu para o interesse do debate. Nick Uricchio foi o convidado mais ilustre. Está em Portugal desde 1978, fundou a Semente Surfboards em 1982 e já fez mais de 12 mil pranchas. É o ‘shaper’ de pro-surfers de dimensão internacional como o algarvio Marlon Lipke, o campeão nacional e mundial junior Vasco Ribeiro, Nicolau Vin Rupp, Gony Zubizarreta e o jovem promissor Tomás Fernandes.

Ao lado de Nick Uricchio estiveram Leandro Simões, Ivo Afonso e Uwe Kluba, três ‘shapers’ algarvios. Ivo Afonso fundou a Plâncton Surfboards na Serra do Caldeirão, perto de São Brás de Alportel, em 2006. Já fez mais de mil pranchas e, tal como Nick, recorre a máquina de ‘shape’ no seu método de produção. Mas, como ficámos a saber ontem, a máquina de ‘shape’ da Plâncton é um caso especial: foi concebida e construída pelo próprio Ivo Afonso.

Leandro Simões, Ivo Afonso, Nick Uricchio e Uwe Kluba (@paulomarcelino)

Leandro Simões, Ivo Afonso, Nick Uricchio e Uwe Kluba (@paulomarcelino)

Leandro Simões e Uwe Kluba são ‘hand shapers’, fazem as pranchas totalmente com trabalho manual. Leandro Simões diz ser um “shaper tradicional de poliuretano e poliéster”. Não vive do ‘shape’; é um ‘hobby’ com forte componente artística e muito virado para os ‘longboard’ e os modelos ‘retro’, como as Mini-Simons. Trabalha numa garagem na zona de Ferragudo e fez 250 pranchas em 10 anos de actividade. A sua marca de pranchas denomina-se Leander Waveriding Hand Shapes.

Uwe Kluba é um ‘hand shaper’ alemão radicado em Vila do Bispo. “Tenho uma abordagem prática, menos artística”, diz o ‘shaper’ da Kluba Surfboards. Depois de 20 anos na indústria automóvel, Uwe Kluba mudou-se para o Algarve e começou a fazer pranchas de surf. A sua filosofia é tentar fazer pranchas que durem mais tempo, pranchas eficazes mas resistentes, o que o leva a testar materiais diferentes.

Uwe Kluba aplica o espírito meticuloso do seu passado profissional e tem um objectivo sempre presente: “Fazer melhor na próxima prancha”. Por isso continua a fazer pranchas e também por isso está a ponderar recorrer a máquina de ‘shape’, porque esta permite reproduzir os modelos e melhorar a partir daí… em vez de fazer tudo de novo, do princípio e à mão.

Ainda que as abordagens e métodos de trabalho possam ser diferentes, os quatro ‘shapers’ estão ‘na mesma onda’, o que pode servir de amostra para definir um perfil destes artistas. Todos eles são surfistas. Todos eles preferem o ‘hand shape’, embora alguns recorram às vantagens do ‘shape’ com máquina. Todos eles criam a partir da relação pessoal com o cliente, a partir das características fisionómicas e da qualidade do surf do comprador. E o trabalho torna-se tanto melhor quanto melhor for essa cumplicidade.

Tertúlia cativou o público. Estava previsto durar uma hora, mas prolongou-se por duas horas (@paulomarcelino)

Tertúlia cativou o público. Estava previsto durar uma hora, mas prolongou-se por duas horas (@paulomarcelino)

Os ‘shapers’ são pessoas curiosas a propósito da sua área de trabalho, sobre a qual estão sempre a investigar e a experimentar novas soluções; e são pessoas descontraídas na sua forma de estar na vida e de lidar com as outras pessoas. Têm os seus segredos profissionais, o fruto da experiência e que faz a diferença no produto final. Mas partilham muitas ideias. Todos eles têm preocupações ambientais, mas sabem que o seu trabalho é poluente – porque usa polímeros e resinas – e que os materiais ditos ecológicos são mais caros. O cliente pode não estar disposto a pagar mais e ter uma prancha que não é branca, porque “os blocos (núcleo de material polímero) naturais não são brancos”, como disse Ivo Afonso.

Ontem, na tertúlia, ficámos a saber que a combinação poliuretano e poliéster é a base do ‘shape’ de pranchas de surf. A combinação alternativa esferovite (poliestireno) e epoxy tem sido muito falada nos últimos tempos, até pela divulgação feita pelo multicampeão mundial Kelly Slater. Mas, na opinião dos ‘shapers’ presentes em Faro, a combinação esferovite e epoxy só funciona bem para ondas pequenas. Ficámos também a saber que poliéster e epoxy são colas com características diferentes.

Perceber melhor os materiais e as preocupações patentes na produção de pranchas de surf; conhecer as diferentes abordagens e os artistas que estão na essência da modalidade foi a lição da tertúlia. Ficámos mais ricos de conhecimento e deixámos de ter qualquer dúvida em como surf e arte são duas faces da mesma onda.

 

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