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'Influências', 5ª Edição Sagres Surf Culture

Sagres Reúne Figuras Mundiais da Cultura Surf

Andrew Kidman, Rusty Miller, João Rei; momento musical que encerrou o Sagres Surf Culture 2016 (®PauloMarcelino)
Andrew Kidman, Rusty Miller, João Rei; momento musical que encerrou o Sagres Surf Culture 2016 (®PauloMarcelino)
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A quinta edição do Sagres Surf Culture levou ao Algarve algumas das figuras mais influentes da cultura surf mundial. Rusty Miller, Andrew Kidman, Chris Hines, Júlio Adler, Sancho Rodriguez, Sandow Birk e Wolfgang Bloch foram os convidados que durante três dias partilharam as suas experiências e a sua visão sobre o surf com o público na vila de Sagres. O surf é mais do que um desporto; é uma forma de arte, uma forma de estar em sintonia com a natureza, connosco e com os outros. Esta foi a mensagem de um evento de ‘Influências’, que constituiu uma oportunidade rara para alargar os horizontes da mente.

O evento decorreu no Memmo Baleeira Hotel, nos dias 26 a 29 de maio. Exposições de fotografia de vários autores, incluindo imagens com História captadas pela ‘lenda’ Rusty Miller; exposições de pinturas de Sandow Birk e Wolfgang Bloch, música ao vivo no Pátio das Cantigas, com Sam Alone & The Gravediggers, The Fellow Man e Storm & The Sun, no sábado à noite; ‘workshop’ sobre pranchas em madeira com José Antunes e as suas Yoni EcoSurfboards, palestras e exibição de filmes, curtas-metragens do SAL – Surf at Lisbon Film Fest, o histórico ‘Morning of the Earth’ (1971), com o surfista Rusty Miller; e o marco ‘Litmus – A Surfing Odyssey’ (1996), apresentado pelo próprio realizador, Andrew Kidman.

>Sancho Rodriguez, Chris Hines, Andrew Kidman, Wolfgang Bloch, Rusty Miller, Sandow Birk e Júlio Adler (®PauloMarcelino)

>Sancho Rodriguez, Chris Hines, Andrew Kidman, Wolfgang Bloch, Rusty Miller, Sandow Birk e Júlio Adler (®PauloMarcelino)

O conteúdo – todo ele gratuito – oferecia razões mais do que suficientes para celebrar o espírito e a cultura do surf, mas foram as conversas com os convidados, a disponibilidade e a emoção na partilha, que  criaram neste Sagres Surf Culture momentos únicos de grande riqueza intelectual e emocional. “O lado humano dos convidados foi uma revelação. As palestras tiveram conteúdos muito interessantes, mas com uma química muito gira entre público e oradores. Estou muito satisfeito com toda a dinâmica de interação; acima das minhas expetativas”, comentou João Rei, organizador do evento, ao Swell-Algarve.

A 5ª edição anual do Sagres Surf Culture foi uma edição de aniversário, subordinada ao tema ‘Influências’. “Foi a edição internacional do Sagres Surf Culture. Este ano, com a colaboração da Câmara Municipal de Vila do Bispo tivemos condições para que isto acontecesse”, salientou João Rei.

João Rei, organizador do Sagres Surf Culture (®PauloMarcelino)

João Rei, organizador do Sagres Surf Culture (®PauloMarcelino)

Todos participantes internacionais que foram convidados são surfistas e figuras influentes em áreas específicas de atividade: o britânico Chris Hines, ativista ambiental e fundador do movimento Surfers Against Sewage; o equatoriano Wolfgang Bloch, artista plástico conhecido pela placidez cromática das suas pinturas de inspiração marinha; o norte-americano/australiano Rusty Miller, uma lenda vida do surf; o artista contemporâneo norte-americano Sandow Birk, o jornalista brasileiro Júlio Adler, o multifacetado artista Andrew Kidman, realizador, músico, escritor e ‘shaper’ norte-americano; e o organizador do Surfilm Festibal, o basco Sancho Rodriguez.

Foram dias de partilha entre livres pensadores, que culminaram numa conversa informal no jardim do hotel, ao final da manhã de domingo. Percebeu-se que, para os convidados, a competição é secundária. “No Reino Unido temos um campeonato para escolher o pior surfista. É bom celebrar a normalidade”, disse Chris Hines.

Chris Hines, Andrew Kidman e Wolfgang Bloch (®PauloMarcelino)

Chris Hines, Andrew Kidman e Wolfgang Bloch (®PauloMarcelino)

Falou-se também sobre ondas artificiais, agora na moda por causa da iniciativa de Kelly Slater. “Não me interessa surfar no cloro. Aborrece-me estar num tubo durante 50 segundos. A perfeição é elusiva e por isso vou todos os dias à praia”, comentou Sancho Rodriguez. “A frustração e a imprevisibilidade são duas características importantes no surf”, acrescentou Júlio Adler. “O génio está fora da lâmpada e vai acontecer. Mas os parques de ondas funcionam com combustíveis fósseis. Se não forem ecologicamente sustentáveis, nenhum surfista deve lá ir”, disse Chris Hines.

O ecologista mostrou-se bastante interventivo na defesa do ‘foam’ ecológico no fabrico de pranchas. A matéria prima não tem entrado no mercado porque as pranchas acabam por ficar amareladas. O ‘shaper’ Álvaro Costa, da Polen, estava na assistência e sublinhou que o ‘foam’ ecológico provoca também problemas de flutuação e de vibração nas pranchas.

Conversa informal com os convidados, no jardim do Memmo Baleeira Hotel (®PauloMarcelino)

Conversa informal com os convidados, no jardim do Memmo Baleeira Hotel (®PauloMarcelino)

“O boom do Surf na Europa produziu muitos ‘wanna be'”, acrescentou Álvaro Costa, salientando o problema de o surfista de recreação procurar pranchas à imagem do surf de performance para competição. A indústria vive disso e o ‘foam’ ecológico até é mais caro. “É verdade, mas eu tenho clientes que o procuram”, contrapôs o ‘shaper’ algarvio Uwe Kluba, que também estava na assistência.

Andrew Kidman também é ‘shaper’ e tem uma opinião muito própria sobre a indústria. “Eu faço pranchas e sinto-me ofendido com as pranchas de produção de massa porque são de má qualidade. Quando faço as minhas pranchas de surf, construo-as para durar uma vida”, comentou o norte-americano. Mais conciliador e ‘do alto’ dos seus 73 anos de idade, Rusty Miller concluiu: “Menos de 10 por cento das pessoas que fazem surf estão na competição. Podemos tolerar a sensibilidade própria ao nível da alta performance e eliminar estes vícios no surf livre”.

Conversa de Jardim, assim se denomina o encontro informal que habitualmente encerra o Sagres Surf Culture (®PauloMarcelino)

Conversa de Jardim, assim se denomina o encontro informal que habitualmente encerra o Sagres Surf Culture (®PauloMarcelino)

Mas, afinal o que é o surf? Mais uma vez, as sábias palavras de Rusty Miller, a sua ampla experiência histórica, deram uma resposta que permite pensar. “Eu tinha 13 anos, vivia em Sacramento, California, e ia ver o Phill Edwards fazer as suas próprias pranchas. Ele dizia-me que o surf não é desporto; é uma forma arte. Estávamos em 1961 e ele dizia também que o surf estava a tornar-se comercial”. Phil Edwards é considerado um dos melhores surfistas de todos os tempos, o primeiro a completar uma onda em Pipeline e tinha na altura uma carreira brilhante em competição… mas fazia as suas pranchas e via mais arte que competição nas ondas.

Sobre as multidões nas ondas (‘crowd’) todos concordaram que o maior problema não é haver muitos surfistas, mas pouca educação dentro de água. Para quem defenda ainda um certo ‘localismo’ legitimador do direito do surfista mais competente à melhor onda, Andrew Kidman contrapôs: “Ver um surfista principiante de pé mas pouco equilibrado numa onda grande, ou mesmo num tubo, é uma grande alegria para quem assiste. Pode ser a onda da vida dele”.

Rusty Miller, 73 anos de idade, 62 anos nas ondas; uma lenda viva do surf mundial (®PauloMarcelino)

Rusty Miller, 73 anos de idade, 62 anos nas ondas; uma lenda viva do surf mundial (®PauloMarcelino)

No final da conversa de jardim, o Swell-Algarve questionou Rusty Miller sobre os conselhos que tem para os mais novos e para os que estão agora a começar a surfar. “Aos surfistas com 30 anos de idade, digo que têm mais meio século de surf pela frente, se cuidarem do corpo e da mente. Aos mais jovens que estão agora a começar peço que sejam gentis na água, partilhem ondas, sigam o exemplo de surfistas com boa reputação e celebrem as ondas dos outros“. Palavras de um surfista com 63 anos de mar. ‘Respect’.

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